Quem sabe

QUEM SABE

 

Posso acordar pensando nisso

Se dormir

 

Depois

Se não ouvir uns bem-te-vis

Se um sabiá não ensaiar

Nuns galhos secos em frangalhos

 

Se a névoa embaçar o amanhecer

 

Se não bebericar o beija-flor

Nos pingos que respingam arco-íris

 

Se as ararinhas não vierem

Tagarelando entre si

 

Ainda assim

Nada mudou demais

Tudo está bem

Tudo que leva a nada

 

O tempo é fragmento e desencontro

Quebra-cabeça em que falta peça

 

Só não espere

Desta vez

Que eu vá guardar palavras num baú

 

Palavras

Presentes

Embaladas muito bem

Recebo e abro

Mas deixo em quarentena

E no correr dos dias

Decênios

Veremos se definham

À míngua

Ou se prosperam afinal

 

*****