Quem sabe
QUEM SABE
Posso acordar pensando nisso
Se dormir
Depois
Se não ouvir uns bem-te-vis
Se um sabiá não ensaiar
Nuns galhos secos em frangalhos
Se a névoa embaçar o amanhecer
Se não bebericar o beija-flor
Nos pingos que respingam arco-íris
Se as ararinhas não vierem
Tagarelando entre si
Ainda assim
Nada mudou demais
Tudo está bem
Tudo que leva a nada
O tempo é fragmento e desencontro
Quebra-cabeça em que falta peça
Só não espere
Desta vez
Que eu vá guardar palavras num baú
Palavras
Presentes
Embaladas muito bem
Recebo e abro
Mas deixo em quarentena
E no correr dos dias
Decênios
Veremos se definham
À míngua
Ou se prosperam afinal
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